segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

- Alo, eh do RH?

- Sim - respondeu uma voz feminina do outro lado do telefone.

- Oi... meu nome eh Monica, sou funcionaria, terminei mes passado minha licenca maternidade e estou de ferias. Acontece que meu bebe esta ficando muito doente com a creche e... bem... eu gostaria de saber sobre licenca nao-remunerada. Existe essa possibilidade na empresa?

- Hum.... sim.... mas o motivo tem que ser realmente importante...

Em silencio me perguntei o que poderia ser mais importante do que o meu bebe doente. Uma viagem? Talvez um curso de ingles ou uma pos-graduacao? Eu conhecia outras pessoas que tinham conseguido a tal da licenca nao-remunerada na empresa por esses motivos. Entao por que um afastamento para cuidar de uma crianca que nao estava se adaptando aos cuidados de pessoas estranhas em um local que nao era sua casa seria banal?

A mulher do outro lado da linha possivelmente tinha filhos. Possivelmente tinha passado pela dolorosa separacao da mae e do bebe. E alem de tudo, era treinada para gerir os recursos humanos... sim... HUMANOS... da empresa em que eu trabalhava. O que havia insensibilizado essa mulher? Por que ela nao conseguiu ouvir a propria voz na minha pergunta?

Acontece que nao era ela me respondendo, mas toda a sociedade em que eu vivia.

Faz mais ou menos 1 ano que me descobri gravida. Antes disso, achava que a mulher havia chegado la (la onde, mesmo?). Eu era um bom exemplo disso: carreira bem sucedida e bem remunerada,
numa profissao majoritariamente masculina, liberdade social e sexual. Me orgulhava de nao saber cozinhar. Mas a partir do resultado positivo, novas versoes de mim comecaram a surgir.  E para cada instinto feminino que aflorava, uma instituicao da sociedade tentava substitui-lo e cala-lo.

"Mulher nao eh forte o bastante para parir." E ela eh separada das outras mulheres de seu grupo. E eh construida toda uma instituicao medica, para corta-la e retirar a crianca enquanto ela fica deitada, inerte.

"Mulher nao consegue amamentar." E lucram empresas que inventam cada vez mais  processos sofisticados para transformar o leite de outros mamiferos em leite humano.

"Mulher nao eh capaz de educar." O melhor eh colocar bebes que mal balbuciam em creches, agora nomeadas centros de desenvolvimento infantil, bilingues, para que eles socializem num mundo globalizado. Sem esquecer da aula de psicomotricidade, para ensinar funcoes escritas em nossos genes.

Imaginem um ser programado biologiamente para suportar uma dor da intensidade de 20 ossos se quebrando. Um ser que se transforma em alimento para outro ser. Que institivamente sabe ensinar o outro a sobreviver sozinho? Que forca nao teria esse ser em nossa sociedade... Porem, nos mulheres ainda somos chamadas de sexo fragil. E vamos vivendo... e aceitamos ser submissas e mal entendidas.

Como voce faz a mulher ser cada dia mais submissa? Faz com que ela nao se acredite capaz nem de suas funcoes biologicas mais primarias. Diz que ela tem um papel masculino importante numa sociedade masculina, que ela lutou e conseguiu esse papel atraves do feminismo. Entao ela se sente forte e vencedora.... mas em seguida destroi o feminismo fazendo outras mulheres acreditarem que tem que querer se igualar aos homens, ao inves de encontrar seu verdadeiro papel na sociedade. Afirma que se ela exercer seu papel de forma feminina, ela perde seu valor. E como a maternidade nao tem lugar num mundo masculino que nao a vive, parar uma carreira em nome dela desvaloriza a mulher enquanto que paradas programadas para viagens e cursos sao toleradas.

E entao voce se pergunta incredulo sobre o porque desse comportamento. Mas lembre-se: mulheres frageis e submissas criam criancas inseguras, que um dia virarao adultos conformados, que aceitarao a realidade em que vivem e a perpertuarao, para contento de quem nos domina agora. Ao contrario, mulheres que reconhecem seu papel na sociedade e sua forca feminina, que entendem que quando viram maes tem como funcao principal a vida de outro ser humano complexo, que esse novo vinculo que estao inseridas eh muito mais importante do que qualquer projeto ou contrato de trabalho assinado, criam criancas questionadoras e adultos inquietos que terao a chance de mudar o mundo no futuro.

Esse blog eh sobre o meu caminho de descobertas ate aqui. Nao trago dicas de maternidade nem dos locais para a escolha do enxoval. Conto sobre o meu empoderamento, que nao aconteceu no parto, mas durante a amamentacao: dai o nome Via Lactea.